
O acaso colocou os vizinhos do Prata em um conflito de vida ou morte.
Argentinos e uruguaios estão muito próximos. Quando se roda pelas estradas duplicadas que ligam Montevideo a Colonia ou Montevideo a Punta del Este dá pra ver um grande número de carros argentinos.Os países estão colados, separados por um rio. Aliás, de Colonia dá para ver os prédios mais altos de Buenos Aires e as luzes da cidade durante a noite.
Buenos Aires é agitada, cosmopolita, intensa, ainda que guarde em suas construções fortes marcas do passado.
Montevideo é menor, mais calma, mas também apaixonada pela cultura, assim como a vizinha maior. Tem suas ramblas, as avenidas que acompanham as margens do Prata, lugar excelente para tomar um bom chimarrão no final de tarde. Tem também suas belas construções, casas bonitas e ruas arborizadas no bairro Carrasco, e uma vida cultural interessante.E tem o Centenário.
Amanhã, no Centenário, um estádio feito em apenas oito meses para a Copa de 1930 e que está em um aprazível parque da cidade, Argentina e Uruguai farão o grande duelo das eliminatórias.
Como na final de 30, o estádio vai balançar. Mas a realidade hoje é outra.
Em 1930, o Uruguai era a cara do futebol. Desenvolveu um estilo próprio de jogar e arrasou nas Olimpíadas de 1924 e 1928. Foi a primeira escola a se estabelecer no mundo da bola.
Os tempos mudaram, outras escolas surgiram. Não bastasse isso, a economia foi impiedosa com a Banda Oriental. A agricultura e a pecuária sofreram muito com a crise americana de 1929, e os países exportadores de produtos primários agonizaram por longos anos. Na América Latina quem não conseguiu bancar um processo de industrialização ou não teve minério para vender para os ricos embarcou feio. O Uruguai, não obstante um país de pouca desigualdade social, viu sua economia definhar, em um processo muito semelhante ao ocorrido no sul do Rio Grande do Sul e que até hoje mantém a região no atraso.
No futebol, sem dinheiro, com milhares de habitantes saindo do país para procurar uma vida melhor, e com um número crescente de garotos que abandonam os clubes locais pela mão de empresários, a escola uruguaia virou coisa do passado. Hoje é sinônimo de pancadaria, algo que não era a única marca de seu estilo em tempos remotos.
Já a Argentina também teve sua crise na pecuária e agricultura, mas tem território, dinheiro e posição geopolítica que lhe garantiu outra sorte, ainda que o país tenha saído faz tempo do sonho europeu e procura o seu rumo, na luta para não ser mero coadjuvante nas economias regional e global.
Mas o seu futebol não é coisa do passado. É presente, embora em crise.
Nesta quarta o Centenário vai rugir. Não se sabe se as vozes dos enlouquecidos torcedores conseguirá resgatar o passado. Por outro lado, não se sabe se a Argentina conseguirá superar sua crise, aprofundada pela intervenção do homem de la mano de Dios.
O presente em crise enfrentando o passado que luta por voltar.O palco é o teatro de 79 anos atrás.Um espetáculo imperdível para quem ama o futebol.
Foto: arquivo pessoal de Gerson Sicca-bandeira levada por jogadores uruguaios para a Olimpíada de 1924. Peça do museu do estádio Centenário.